Você precisa de Redes Sociais para “Ser Artista”? Um breve texto sobre a escolha de postar no Instagram, TikTok, Facebook e etc.

Você precisa de Redes Sociais para “Ser Artista”? Um breve texto sobre a escolha de postar no  Instagram, TikTok, Facebook e etc.

Por Vannie Gama.

Todas as vezes em que falo que não tenho mais redes sociais ou, que não as alimento, a primeira coisa que me perguntam é ”como eu faço” para ”ser artista” sem ”postar”. Minha resposta é, geralmente, a mesma: é um privilégio, mas também uma escolha, pois sinceramente, ter redes sociais jamais mudou positivamente absolutamente nada na minha carreira. Na verdade, eu conheço muitos artistas ”de Instagram” que não fazem exposições físicas, não vendem suas obras para coleções ou colecionadores, leilões ou galerias, tão pouco fazem colaborações com outros artistas em espaços públicos, fora, talvez, em festivais que são ”bastante instagramáveis” ou que são festivais com propostas propriamente digitais (estes sim, absolutamente legítimos e contemporâneos).

A melhor parte é que eu não faço essa escolha por ser um ”outsider”, mas porque 95% das pessoas artistas que admiro, que participam de bienais, publicam, são ou ativistas ou pessoas pesquisadoras, nenhuma delas tem grandes números em redes sociais, ou se quer as alimenta. E como este é um tópico recorrente, ”online-offline”, decidi fazer esse texto que, diferentemente de publicações acadêmicas laboriosas, é assumidamente mais intimista, e é para você, artista emergente ou artista em consolidação que está discutindo este ponto entre pares, ou entre pessoas queridas, afinal, é realmente uma agonia a constante reflexão: vale a pena ou não ”estar aqui”?.

Este texto tem sua versão original em português brasileiro e, provavelmente vou levar algum tempo para fazer as traduções em outros idiomas. A razão de manter este texto em português é epistemológica: por mais que eu tenha sempre tido exposições internacionais, eu fui na maior parte do tempo um artista brasileiro no Brasil, com problemas de Brasil, seja no mundo da arte ou fora dele, e a maioria das pessoas que me perguntam isso do dilema das redes para artistas são brasileiras, o que faz muito sentido pragmático, a considerar que o Brasil é um dos países mais cronicamente onlines do mundo – Um dos maiores usuários de Instagram, TikTok e Youtube, perdendo apenas para outros países das Américas e da Ásia – Inclusive, Facebook é menos popular no Brasil, mas ainda muito popular em países anglofônicos. Entretanto, eu já recebi essa pergunta de outras pessoas fora do Brasil, mas sempre, nas Américas.

Convido então você, pessoa leitora, a primeiro, desconstruir alguns imaginários que nos são impostos, ao mesmo tempo que iremos complexificar a sua escolha baseada no seu contexto e na sua mídia. Este texto é moldado para se pensar qualidade, e não quantidade, autenticidade, e não modelização ou pasteurização, então, não são estratégias de mercado, e sim um convite para de fato refletir sobre por quês e comos – mas muito mais ”por quês” do que um savoir-faire. Primeiro, para estabelecermos alguma conexão, duas considerações: se você está lendo esse artigo porque estava procurando pelo tópico e não me conhece, fique a vontade para acessar o labirinto que é esse website, ali na introdução, e, caso você esteja lendo esse texto já acompanhando meu trabalho, é provável que note a diferença temática, já que esse website é dedicado para ”coisas mais formais” do que textos ”tão abrangentes”. Para esse segundo tipo de pessoa leitora, eu te digo: discutir esses tópicos é um momento comunitário, e necessário, seja para quem cria, seja para quem ”consome”. Para o primeiro tipo de pessoa leitora: seja bem-vinda/o/e.

Em um parágrafo, caso o tipo um não queira ter o trabalho de acessar a página inicial, caberá uma apresentação. Meu nome é Vannie Gama, sou um artista visual interdisciplinar, pesquisador e escritor nascido no Brasil, residente atualmente no Canadá. Também sou uma pessoa não-binária, filho de pais que não são artistas (embora meu pai tenha um lado escritor e chegou a receber alguns prêmios com seus contos quando ele tinha mais ou menos a minha idade, ou seja, há 20 anos) e consequentemente que não tiveram contatos (QI = Quem Indicou) para me ”colocar” no mundo da arte. Sou o primeiro da família a fazer um mestrado, e meus pais (minha madrasta e meu pai) sempre me apoiaram daquele jeito de pais preocupados com o futuro de alguém que quer fazer arte ou mesmo pesquisa em humanidades no Brasil, ou seja, sempre tentando instrumentalizar par algo ”útil e seguro” minhas ”habilidades” manuais. Eles não me deram um carro quando passei na faculdade, nem me proporcionaram com rios de dinheiro para morar despreocupadamente, e na verdade, eles mesmos estão agora terminando de comprar seu primeiro apartamento, já que sempre moraram de aluguel. Saí de casa aos 18 anos para ir estudar, e eles me ajudavam como podiam. Morei vários anos em uma pensão na época da faculdade (não numa república), e aos poucos fui construindo minha vida. No momento da escrita deste texto, eu já expus em 9 países, participei de uma bienal, residências artísticas, colaborações em festivais, publiquei três livros, tenho compradores e colecionadores privados, passei anos em leilões, tenho artigos publicados, e me encontro sempre com um amor e ódio pela minha mídia de origem que é a pintura a óleo, e nunca encontro lugares grandes o bastante para fazer instalações e projetos multimídia. Estou com 28 anos e meio, e continuo morando de aluguel, não tendo um carro, mas, tendo feito quase literalmente tudo que quis fazer artisticamente. Cresci me mudando, porém, fora a infância que passei em vários estados do Sul do Brasil (porém, nascido em São Paulo), passei a maior parte da minha vida adulta no interior Paulista (levem isso em consideração).

Dito isso, sou uma pessoa que estuda história da arte, ao mesmo tempo que valorizo muito as minhas e as experiências alheias, contemporâneas. Sobrevivente dos tempos áridos culturais durante a covid-19, permaneço um artista profissional, então, há uns 8 anos ininterruptos. É sob essa ótica que falaremos sobre redes sociais e vida artística. Bom, dito isso, vamos quebrar alguns estereótipos. Primeira pergunta: O que você quer com a sua arte?
Essa pergunta é muito importante e não deve ser levada nem com moralismo, nem com a inconsequência de uma resposta leviana. Caso você não tenha ideia de por ”onde começar” a responder essa pergunta, sugiro que assista a este vídeo aqui, da Marina Abramovic, uma das gênias da arte contemporânea.

Caso você tenha assistido ao visto e ainda ”sinta que é de fato” uma pessoa artista, podemos continuar para ”O que você quer com a sua arte?”.
Temos algumas categorias quantitativas na ala ”fama e dinheiro”: 15 minutos de fama, fama por repetição (que pode ser de uns poucos anos há 20 anos, como o Romero Brito e geralmente quer dizer um esvaziamento poético), dinheiro de mercado (sem fama), fama parcial por motivo de herança, algum reconhecimento pós-morte ou na idade madura. Agora, categorias qualitativas em ”sobrevivência e desenvolvimento artístico”: viver com pouco mas autenticamente e completamente de arte, viver bem sustentando dois empregos (sua vida artística e alguma profissão secundária) pela vida inteira, viver bem sustentando dois empregos (sua vida artística e alguma profissão secundária) até a idade madura ou com alguma consolidação artística em vida, viver bem com uma profissão sólida e investir por um período estratégico na independência artística (tirar alguns anos para ”tentar” a vida artística dentro de moldes de mercado), ou viver bem com uma profissão sólida e intercalar períodos de investigação artística (passar anos em uma profissão, guardar um dinheiro para ”viver de arte sem os moldes do mercado” e caso for necessário, voltar para a vida de uma segunda profissão, sem grandes desgastes).
Esses são os cenários comuns de uma pessoa que precisa trabalhar. Se você é um artista herdeiro, é provável que simplesmente faça dinheiro ”suficiente” tanto por herdar bens da família (um imóvel, por exemplo, que já é metade de preocupação a menos de uma pessoa ”comum”), ou tanto por ser uma capilaridade muito mais fácil no mercado – embora nepobabies artísticos sejam os primeiros a dizer ”que ainda é difícil mesmo assim”, lembre-se que é pior caso você não seja um.

Você deve ter reparado que não tem uma categoria onde você ”começa jovem, ganhando bem e sendo autêntico”, porque realisticamente, isso seria a categoria mais dourada do mundo da arte: sorte. Sorte é uma palavra muito poderosa e engraçada, porque o ser humano tem uma síndrome de controle e meritocracia tão transmissível, que é quase inerente negar a importância ou mesmo legitimar o acaso nos ”grandes sucessos”. Essa romantização de que ”basta esforço” poderia ser facilmente um diálogo político, mas deixarei isso de lado, já que caso você queira me ver discutindo sobre capitalismo e as problemáticas da desigualdade social em detalhes, há literalmente livros para isso. Aqui, tentarei ser pragmático, e o pragmatismo exige o realismo de reconhecer que a sorte está, sim, nas exceções da categoria onde se tem ”tudo”, ”desde cedo”, e com liberdade artística. E mesmo os casos que ”parecem sorte”, geralmente, basta uma pesquisa um pouco mais profunda para percebermos que essa sorte tem sobrenome, tem alguém que conhece alguém, e, quero deixar bem evidente que o fato de ter contatos não significa, de forma alguma, ”ter o bilhete dourado” dessa tríade artística (sucesso, fama, e autenticidade), até porque de fato se você não for uma pessoa artista, ”boa mesmo”, não vai adiantar essa base. Ela provavelmente te dará alguns anos de mercado, somente, pois o mercado também costuma reconhecer que ou você cria algo necessariamente bom (não artístico, mas bom para os modelos mercadológicos), ou você é uma personalidade que vale a emulação (com boas habilidades políticas, de comunicação, com uma presença forte, por exemplo).

Descendo para o mundo real, precisamos trabalhar com nossos egos e desejos profundos. Se você quer ser artista pelo status de quando ”se alcança” dinheiro e fama, você até tem opções (como da primeira categoria), mas elas serão flácidas. Sua criação será descartável, não como tudo que já é naturalmente impermanente, mas descartável como uma sacola plástica de supermercados ou uma bituca de cigarro no chão – uma perda de recursos da natureza. Mesmo para o interesse de acumular bens, uma performance artística não se sustenta por muito tempo pois a falta de singularidade é transmitida ao público. Pode até demorar uns 10 anos, dependendo da ”trend” ou do ”hype” que você pegou, mas vai acontecer, e sinceramente, eu acho um tanto vergonhoso ter 10 anos de cultura pop para depois justificar sua própria importância com ” eu fiz tal coisa .. lembra?” . Não, ninguém vai lembrar. E não vai porque essa necessidade de justificar já é por si só superficial e estúpida, e reitera o vazio da prática artística. A criação artista não se justifica, pois ela o é, simplesmente. Dito isso, vou discordar um pouco de Abramovic, pois acho que sim, você pode alcançar fama e dinheiro. O problema é que isso não tem nada a ver com ser um artista, tão pouco uma boa artista. Isso talvez mostre como você é uma boa pessoa para negócios. E negócios por negócios, há mais rentáveis e que também usam da imagem de individual para alcançar a fama. Posso dizer que até aqui, tudo que foi dito é válido, com suas adaptações, para todas as mídias da qual a persona artista é parte vital da obra: artistas visuais e artistas do audiovisual, performancers e atrizes, musicistas e chefs. Talvez menos aplicado à literatura e ao roteiro, ou à criação de jogos, uma vez que a ”assinatura” é menos ”centralizada na persona”, mas, é algo totalmente debatível (como todo o texto).

Pensando nisso, podemos diferenciar nitidamente o ser artista por opção e projeção de prestígio, e o ser artista enquanto necessidade existencial, enquanto plano de vida incontornável, mesmo que adaptado à realidade ”comum” de talvez ter de manter dois empregos por anos, ou interpolar responsabilidades, ou simplesmente não viver o conforto que todas as pessoas com ”profissões normais” à sua volta vão ter. E aqui, eu realmente não quero que você, pessoa leitora, entenda como uma dicotomia moral, onde “”há o bem e o mau artístico. Ser artista não é ser santo. Ser artista é conviver com nossos demônios, inclusive. A questão aqui é prática: o que é genuinamente, honestamente importante para você? Se a resposta for ”ser visto e ser estável”, é preciso pensar o que essa ”estabilidade” significa. Se for um nível de materialidade de classe-média, você pode muito bem ter dois empregos, inclusive algum emprego que derive das suas habilidades manuais ou intelectuais artisticamente falando, caso isso não te drene demais criatividade – pois é difícil criar ”para você” e para uma empresa ao mesmo tempo, pensando em artistas de jogos e dos efeitos visuais no audiovisual, por exemplo. Historicamente, era bastante comum manter-se dois empregos para manter a prática artística viva, sobretudo na literatura e na música. Não vivemos mais numa época de patronos e patrocinadores como via de regra, como já fora em outros séculos. Temos, sim, instituições, mas eu as enquadraria no ”viver com pouco mas autenticamente”, uma vez que levará pelo menos duas décadas (normalmente), para você receber ”com uma frequência e volume” suficientes para colocarmos na categoria ”viver bem e autenticamente”, ou seja, apenas na vida madura (pelo menos ali com seus 40 anos, com sorte, no meio dos 30). Notem que também não estou falando sobre ser plantado no mercado, e sim, sobre você decidir tomar as rédeas da sua identidade enquanto artista.

Se estabilidade for uma coisa muito importante para você, é muito provável que você queira estar na categoria de ”fama e dinheiro” mesmo que não para ficar ”muito” famoso ou ”muito”. Não há absolutamente nada de errado em querer estabilidade, mas é imprescindível ser realista com o que se abre mão quando o desejo é moldar-se ao rentável: há perda da autonomia, sempre. Sempre porque o mercado, seja online independente, ou seja um ”mercado tradicional” da arte, e infelizmente, muitas vezes, até o formato de análise das grandes instituições ou das aplicações de leis de incentivo à cultura, procura tendências. Essas tendências têm um desenho característico: elas começam como algo autêntico e são saturadas com o passar de um dado período de tempo, jamais sustentáveis por toda a longevidade da pessoa criadora. Trends passam. Uma pesquisadora que fala sobre isso com uma análise ímpar é a Anne Cauquelin, em seu livro ”Arte Contemporânea”, dos anos 2000. Se manter ”em alta”, para ter uma estabilidade, é se moldar às tendências, mesmo que o primeiro impulso e forma de entrada no mundo da arte (ou do consumo de entretenimento, se preferir ou assim lhe couber), a manutenção será adaptativa. Isso também não é por si um problema, caso você naturalmente não seja uma pessoa que ”tem a energia” da ”independência criativa” e se sinta à vontade com rotinas – não no sentido material de horários, mas no sentido da rotina de metamorfosear-se ao gosto do público, e não às outras forças que vem de você, das suas próprias errâncias.

Caso você, no entanto, saiba, já se conheça, ou apenas sinta que necessita fazer algo ”seu”, ou ”verdadeiro”, da qual chamarei ambos aqui de ”exercício de autenticidade criativa”, aí é bastante provável que a estabilidade não será sustentável, pois o preço ”interno” a essas adaptações de mercado , de algoritmos, seja sufocante depois de alguns bons anos. Para isso, temos algumas soluções, como interpolar carreiras (aproveitar uma moção autêntica e, quando saturada, retomar um segundo trabalho e voltar apenas quando sentir novamente que ”faz sentido” ”interno”), ou justamente viver de maneira mais simples, aliado à coletivos, projetos, galerias e instituições que também cultivam a autenticidade da arte contemporânea, Esses espaços existem, são numeros e nos preenchem em termos da sensação de pertencimento à uma comunidade atenta e, provavelmente, muito mutável, mas não mutável pelas tendências, mas pelas próprias criações, intenções e moções dos indivíduos que sustentam esses lugares.

Em geral, no entanto, o que ocorre, é que ou essas instituições e coletivos independentes também ganham pouco justamente por tal resiliência frente às pasteurizações quantitativas midiáticas, ou, podem até serem grandes instituições e grandes coletivos, sem qualquer ressalva financeira, mas, que justamente pela natureza da rotatividade artística, não poderão ser a sua casa para toda a sua vida: serão maravilhosas experiências de residências, de projetos comuns e de contratos que terão uma duração estimada, e ela não preenche toda a sua existência material – certamente não de forma estável. E para isso, a solução também é simples: uma boa administração financeira, uma constância de criação, uma boa manutenção (franca, e não pedinte ou bajuladora) dessas relações, e um estilo de vida contentado às despesas mornas, e a uma imagem pública pacata, sem grandes holofotes. Caso você consiga ir por este caminho, pode ser que sim, a sorte lhe atravesse, mas também pode ser que não, e se não for, nada te impede de interpolar essas eras de ”sutis fortunas” (no sentido de realização artística e pleno exercício das suas experimentações, crescimentos poéticos), com momentos fora do mundo da arte, em uma profissão mais estável. Se fizer isso, eu apenas darei o conselho sóbrio de que constância é sim uma das chaves de qualquer carreira artística, e quanto mais tempo passamos longe de uma prática, há sim uma relação inversamente proporcional para a dificuldade de retornar para ela de forma plena: furos de currículo artístico são, sim, relevantes, mas não são incontornáveis, apenas devem ser endereçados.

Até aqui você já deve ter percebido o que te brilha mais ou menos os olhos. Peço novamente, num reforço didático e completamente irritante, de que não se deixe ludibriar pelos devaneios de uma vida de ser descoberto, como se isso fosse o objetivo, a procura e o lugar onde a sua energia é canalizada quando se estrutura um futuro artístico enquanto profissão, não enquanto hobbie. É provável que eu faça um outro texto sobre constância na criação artística, mas por ora, vamos pensar apenas que um plano de ação é necessário, mas mais necessário é investigar os seus desejos com essa coisa de ser artista. Observando então esse enorme panorama que criamos até aqui, vamos pensar, aonde se enquadra projetar nossas criações para o público, especialmente, nas redes sociais? Para quais ”categorias” essa decisão colabora?

Pergunta número dois: qual é a sua mídia? Mídias diferentes requerem estratégias diferentes. Eu tenho a minha experiência, a de outros artistas contemporâneos e de algumas histórias, mas com certeza posso falar com mais propriedade da arte visual (incluindo a fotografia, a arte digital e a escultura, não enquadro o filme e teatro [também às artes circenses] aqui porque o filme, por exemplo tem toda uma dinâmica de publicidade bastante diferente por ser a mídia ”mais cara” para se trabalhar e envolver, necessariamente, centenas de pessoas na vocalização e apresentação de uma obra final). Para a música, é também uma outra dinâmica, visto que o mercado da música é muito mais amplo, muito mais popular, e muito mais agressivo do que das demais formas artísticas contemporâneas, e os problemas do mercado da música são mais profundos e estruturais do que os nossos desafios nas visualidades. Posso trazer um música, uma ora dessas, para discutir sobre isso aqui nesses textos ou talvez em forma de áudio, mas por ora, pensemos nas formas de imagem ou coisas que são registráveis de forma visual como um todo.

Vocês já devem ter se deparado com alguma criadora de conteúdo de deixou o Youtube depois de muitos anos de produção audiovisual. É provável que caso isso tenha acontecido os argumentos utilizados tinham a ver com autonomia e estabilidade financeira, pois em algum momento, o balanço e os contratos internos com essa dinâmica acabaram sendo insuficientes frente ao funcionamento da máquina que é a indústria da informação, da qual a indústria do entretenimento é subjacente. Isso costuma acontecer com criadores de conteúdo que possuem motivações ou personalidades artísticas: são performancers, escritores, atores ou atrizes, e que, por tanto, possuem uma tolerância finita à monotonia, à repetição da fórmula. Geralmente são pessoas criativas que vão tentar modular e experimentar alternativas para enriquecer ou mesmo retomar a liberdade criativa (e existencial) que as levou até ali (uma dada plataforma, não só no Youtube). O ponto é que plataformas são produtos de empresas, que funcionam à base de engajamento, tempo de tela, e venda de informação. A prioridade não é a qualidade, mas, como bem sabemos, a quantidade e o aprimoramento de conteúdos hiperpalatáveis, ainda que ultraprocedados no sentido informacional. Assim, sem diferenças ao mercado de arte que não se preocupa com a sensibilização artística ou com a arte de fronteira, o mundo da arte independente online não necessariamente te causará mais do que a necessidade de adequar-se à tendências, o que muito dificilmente não se refletirá na sua criação artística, conscientemente ou inconscientemente, adaptando-se ao que parece mais palatável e chamativo para o público.

Esse público, por sua vez (muitas vezes, nós mesmos) também não está num ambiente que promove temporalidade para que a qualidade de apreensão seja exercitada: com uma imagem depois da outra, a experiência digital imagética é planificada, Horas são gastas de navegação sem muito o que se registrar na memória, o que é inversamente aplicável ao tempo de criação artística: se leva muito mais tempo para criar, do que para se postar. E isso, evidentemente, é a natureza da criação: se leva mais tempo de criar do que para escutar uma música ou, para observar uma criação digital ou uma pintura ”material”. O problema está de que não nos preocupamos mais com a reprodutibilidade e o salto entre mídias de uma única criação, e sim na replicação típica de conteúdo: a experiência de revisitar uma obra, seja ela qual for, é diferente da sua reposição e de uma hiperobsolescência a qual essas obras estão sujeitas. Você nunca vai vencer o algoritmo. A velocidade de propagação de ”conteúdo”, não vê temporalidade de criação. Se a arte por si só já é inerentemente insuficiente para a pessoa artista, imagine quando amplificada à sua receptividade descartável. Quantidade de visualizações e compartilhamentos não são mais do que o resultado exponencial dessa apreciação imediata, esquecível, pobre em nutrientes para quem a criou e quem a consome. Sua banalização é incontornável não pela sua essência, mas pela natureza do veículo, da plataformas online como ela é hoje. Sem falar na censura avassaladora seja em imagem ou texto artístico, que não vai te permitir nem mesmo tentar transmitir o potencial para a obra para além da sua visualidade imediata.

Bom, qual o problema nisso, afinal? Até porque, ”pelo menos é visto, não é mesmo?”
”Quem não é visto não é lembrado” não funciona quando a escala é a partir de seis zeros, pois a questão é muito mais ”quem é o seu público” do que o cassino de cair nos olhos certos.
Se pensamos que nas nossas categorias, há a âncora do reconhecer arte como profissão, e por tanto, enquanto aquilo que vai alimentar você e ajudar a alimentar a sua família, é evidente que pensar no público tem a ver com pensar em quem irá de fato adquirir a seu trabalho ou sua performance. Muito geralmente as maneiras de acessar à parte econômica da cultura é feita por aplicações de projetos ou portfolios, por chamadas específicas que vão te colocar em contato com projetos rentáveis. Há, sim, pessoas que ”caçam artistas” através dos grandes números que são feitos, mas é mais provável que uma publicidade chegue até você, ou seja, que te veja como criador de conteúdo, do que uma galeria, que pode usar sua rede social para compreender parte do impacto ”diário”, porém sem reduzir o valor artístico aquele conteúdo online (a menos que seja uma vanity gallery ou uma galeria não preocupada com qualidade artística, mas lado econômico à curto prazo, insiram aqui o equivalente disso nas outras mídias).

Caso sua intenção seja se manter independente, mesmo assim, pessoas que colecionam obras de arte ou levam artistas para eventos, não são, em geral, cronicamente online. Mesmo jovens empresários não tem o tempo de um adolescente ou um jovem-adulto, tão pouco o interesse em reduzir trabalho à insossa experiência digital. Fora que, dum ponto de vista franco e analítico, o consumo de arte (que não vai te render uns trocados, mas de fato possibilitar um apoio enquanto labor principal), está relacionado à experiência física e ao senso de singularidade. Mesmo a Art Pop, que satirizava a aura da arte e da reprodutibilidade com ares de Dadaísmo na materialidade não-convencional, mantinha suas vendas em galerias ”exclusivas” ou com estratégias de séries finitas, nada acessíveis, Compradores que irão pagar o valor ”real ” das suas obras, não serão sempre seus amigos próximos e familiares (como quando estamos começando nesse universo). Serão pessoas que terão que ver em você, uma figura sólida, mesmo que satírica, mesmo que ”popular” no sentido de ”agir no pop”, e essa figura não é apenas reduzida ao seu crachá digital, mas à profundidade do seu trabalho. Compradores, contratos, instituições, que não querem seu trabalho pela simples tendência temática, mas que serão aliades ao longo da sua vida, e que acompanharam, tanto quanto farão, ativa parte no seu desenvolvimento artístico.

Participar de trends que reduzam a autenticidade do seu trabalho pode até te render poucos dias ou semanas de fama online, mas podem, assim como ultraprocessados, serem absolutamente prejudiciais à sua carreira à longo prazo, não porque é um problema rir e fazer dancinhas, ou fazer filmagens caricatas, mas porque isso mostra a ausência de independência, que é algo contraditório, ambíguo, mas ao mesmo tempo, muito caro ao mundo da arte que irá de fato proporcionar um modo de vida. É evidente que nada disso é válido se você quer ter uma conta nas redes sociais para ”publicar despretenciosamente” suas criações, mas também é evidente que você não estaria lendo este texto até aqui se a intenção não fosse mais movida pelos efeitos profissionais dessa prática para você, para os públicos e para os reais mediadores, que não são as redes sociais, mas os eventos que irão proporcionar espaço de exposição, acolhimento, aprendizado e, sem romantismos ou deslegitimações da arte enquanto trabalho, um meio não tão estressante, nem tão instável, de dormir num lugar confortável, com refeições garantidas e acessos dignos. Por fim, pense bem no que você quer realmente quando terceriza tanto da sua ”realização” e da ”validação” do seu trabalho pelo ”desempenho” de umas imagens e uns textos nas redes sociais. Um dia, elas vão ser substituídas por outras, e o tempo e desgaste emocional (assim como profissional) seus estarão cristalizados em uma rede morta. Caso seu público seja um pequeno e engajado nicho que valoriza seu trabalho dentro da sua autenticidade, conserve-o dentro das suas necessidades. Caso não, não se preocupe. Os e as maiores artistas não estão cronicamente online.

Não é uma profissão fácil. Porém, infelizmente, também não costuma ser erradicável nas atormentadas encarnações de nós, jovens artistas.




Would you like to receive the next post on your digital door? 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *